“Hoje estamos a colocar esta memória, que agora volta a ser uma memória presente das nossas vidas, à disposição de todos.” Foi desta forma que o presidente da Câmara Municipal de Santarém, João Teixeira Leite, assinalou este sábado, 19 de setembro, o regresso dos emblemáticos Elefantes de Santarém à Igreja de São João do Alporão.
As duas esculturas voltam a estar expostas ao público 33 anos depois de terem sido retiradas do espaço público e integradas na Reserva Museológica Municipal. A cerimónia decorreu no âmbito das comemorações dos 150 anos do Museu Municipal de Santarém e da programação das Jornadas Europeias do Património.
Perante representantes do Município, entidades locais e população, João Teixeira Leite destacou a importância de devolver à comunidade duas das peças mais reconhecidas do património histórico e artístico da cidade. “É muito relevante que todos nós possamos passar a mensagem do impacto que está aqui neste monumento, da sua beleza e daquilo que foi também a exigência da Câmara Municipal de qualificar este riquíssimo património”, afirmou.
Uma memória que regressa 33 anos depois
As duas esculturas indo-portuguesas estiveram durante décadas ligadas ao quotidiano de Santarém, sobretudo através da sua presença junto do antigo Museu Municipal. Em 1993, devido ao estado de conservação e à necessidade de salvaguarda das peças, foram retiradas do espaço público e transferidas para a Reserva Museológica Municipal. A degradação provocada pela exposição exterior e atos de vandalismo esteve entre as razões que levaram à sua retirada.
Apesar de afastadas da exposição permanente, permaneceram na memória de várias gerações de scalabitanos, para quem os Elefantes se tornaram uma imagem familiar da cidade.
O historiador do Município Luís Mata destacou precisamente essa relação entre as peças e a população, lembrando que o seu valor não resulta apenas da antiguidade ou da qualidade artística, mas também das memórias construídas em seu redor. “A pedra permaneceu, mas os lugares, as funções e os olhares que sobre ela se projetaram foram mudando”, afirmou.
Dos suportes de um túmulo à memória de uma cidade
As esculturas terão sido concebidas como suportes de uma arca tumular ou de um monumento funerário relacionado com uma personalidade ligada ao Estado Português da Índia. Chegaram às coleções municipais em 1907, através de uma doação de Maria Luísa da Silva Pedroso, e passaram posteriormente por diferentes espaços de Santarém.
Durante décadas, gerações de crianças brincaram junto das esculturas, contribuindo para que estas ultrapassassem a sua função original e se transformassem também num elemento da memória coletiva da cidade. Essa relação está igualmente associada ao mote do Museu Municipal, “Temos Memória”, estabelecendo uma ligação simbólica entre peças originalmente concebidas para perpetuar uma memória funerária e as memórias que acabaram por criar entre os habitantes de Santarém.
“Reviver, resistir, reimaginar”
A cerimónia integrou as Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema “Património em risco: reviver, resistir, reimaginar”.
Para Luís Mata, estes conceitos ajustam-se à própria história das esculturas: reviver, porque regressam à exposição pública; resistir, porque sobreviveram ao tempo e às mudanças de contexto; e reimaginar, pela possibilidade de serem hoje interpretadas simultaneamente como peças de escultura funerária, testemunhos da história luso-oriental e elementos da memória social de Santarém. “Não regressam simplesmente ao lugar de onde partiram; chegam a um novo lugar trazendo consigo todos aqueles por onde passaram”, afirmou.
Património e centro histórico
João Teixeira Leite enquadrou ainda o regresso dos Elefantes na estratégia municipal de valorização do património e do centro histórico, referindo intervenções e projetos relacionados com espaços como as igrejas de Marvila e da Graça, o Convento de São Francisco e o Teatro Rosa Damasceno. “Nós falamos muitas vezes em obras materiais, mas hoje aquilo que estamos a fazer é uma grande obra imaterial”, afirmou, associando o regresso das esculturas à preservação da memória coletiva e ao reforço da ligação da população ao património da cidade.
Depois de 33 anos afastados da exposição pública, os Elefantes passam agora a integrar novamente o Núcleo Museológico de Arte e Arqueologia, na Igreja de São João do Alporão, onde poderão ser conhecidos por novas gerações.

